AIDS
no Presídio
Uma bomba epidêmica sob as grades
O
sistema penitenciário do Estado de São Paulo é o maior
do país, e o mais superpovoado. São 32 mil presos em penitenciárias
e ainda 20 mil presos nos distritos policiais em cadeias públicas, aguardando
vagas na penitenciária. Existem ainda 120 mil mandados de prisão
sem cumprimento pela falta de espaço. Pessoas que já tiveram voz
de prisão mas estão soltas. Embora o Estado tenha aumentado a
capacidade do sistema penitenciário nos últimos 10 anos, o crescimento
da população de presos é maior. As prisões de São
Paulo constituíram o terceiro índice de AIDS no país, até
dezembro de 1992, 1400 doentes, ficando atrás só das cidades de
São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje, 80% das mortes no presídio são
causadas pela AIDS. Dez mil homens estão contaminados e 2.700 mulheres.
São três novos casos a cada dia, e uma média de 1,5 morte
ao dia.
Contaminação
Promiscuidade e drogas
Até a década de 80, a droga habitual usada pelos presos era a maconha. Eles passaram ao consumo de drogas injetáveis coincidindo exatamente com a epidemia de AIDS. A maior parte se contamina ainda em liberdade. De cada 5 homens que são presos, um chega contaminado, e esse índice é maior na mulher, de cada três, uma está contaminada. A disseminação fica por conta da promiscuidade. "O sexo é uma forma de manter poder de ascensão sobre os companheiros dentro do presídio", analisa o diretor do departamento de saúde do sistema penitenciário de São Paulo, Manoel Schechtmann. Para ele, a AIDS no presídio "tem uma dimensão especial e assustadora". Acompanhando a curva de crescimento que a epidemia provoca, em cinco anos, teremos cerca de 8 mil doentes dentro das prisões, instituições que não estão preparadas para um atendimento médico desse porte, ainda mais se tratando das necessidades de um paciente com AIDS. Manoel Schechtmann afirma que a dificuldade está na falta de recursos para um programa permanente de prevenção e controle da doença.
Prevenção
e Controle
Faltam recursos e médicos adequados
Tinta
por cento dos presos recebem visita íntima e não há camisinhas
para essa gente. Preservativos não fazem parte do orçamento do
Estado, embora seja uma forma de prevenção, ainda que não
totalmente segura. Os presos soropositivos não são isolados, já
que na sociedade os portadores também não o são. O que
se faz é informar. A média de prisão é de 30 meses,
período considerado suficiente para informar e fazer do preso um "agente
multiplicador" dessa informação, já que eles têm
sua linguagem própria e credibilidade junto aos companheiros. Para o
diretor do departamento de saúde penitenciário, o despreparo dos
médicos também dificulta o processo de prevenção.
Segundo Manoel Schechtmann, os médicos são mal informados. São
preconceituosos e cheios de tremores da AIDS, e transmitem tudo isso ao paciente.
A maioria não foi reciclada, tem dificuldade de notificar e medicar o
paciente com AIDS.
Para o médico Orlando, que atua com pacientes com AIDS dentro deste sistema,
é impossível um tratamento satisfatório que atenda o encarcerado.
Primeiro porque, antes de um doente, ele é um prisioneiro, e como tal
ele tem acesso a um sistema de saúde totalmente primário. Um médico
e um auxiliar de enfermagem são responsáveis por mais ou menos
25 pacientes, para atender a todos os cuidados que esse tipo de paciente requer
(banho, troca de roupa, medicamentos, etc..). "Não existe resposta
terapêutica, nem relação médico-paciente porque o
sistema penitenciário não oferece nada, nós médicos
temos pouco a oferecer e o próprio paciente recusa sobreviver dentro
desse quadro", continua o médico. "Quanto menos tempo de vida
ele tiver nessas condições, melhor será, menor será
seu sofrimento, menor será sua humilhação e sobretudo será
menor a solidão a que está condenado. Para o doente de AIDS nada
faz diferença. Sua pena não será menor por causa disso,
ele não terá nenhuma regalia (alimentação, atendimento
médico). Tudo será igual para ele e para o não doente.
Quando há uma melhora, o paciente volta à prisão de origem
e é interrompido o tratamento. "Ser um HIV+ dentro do sistema penitenciário
é estar condenado a morte num espaço muito curto de tempo",
finaliza o médico Orlando.
PM
Polícia militar
PREPARADA PARA ENFRENTAR A AIDS
O primeiro caso de AIDS na
polícia Militar de São Paulo foi notificado em 1985. Um policial
morreu com suspeita da doença mas não foi possível um diagnóstico
preciso. No ano seguinte mais dois casos colocaram a direção do
Hospital da PM em estado de alerta: Foi criado então um Serviço
de Prevenção e Controle da AIDS. Até hoje, já foram
notificados 150 casos, embora o chefe do sistema de prevenção,
o Major-médico Osmar Monte, acredite que há um número bem
maior, para os 80 mil homens da Polícia Militar do Estado.
Os soldados participam de palestras a respeito e receberam até uma cartilha
com informações sobre prevenção, meios de contaminação
e como o policial deve se portar diante de situações que envolvam
pessoas sangrando, acidentes, revista a pessoas suspeitas, já que o índice
da AIDS entre os marginais está em 30%. A cartilha traz ainda, como se
deve desinfetar farda e viatura depois do contato com possíveis contaminados.
PREVENÇÃO E ESTRUTURA PARA O ATENDIMENTO DA AIDS
Dos casos registrados,
a maioria contraiu o vírus por contato sexual. Dos 150 casos, apenas
3 foram contaminados por drogas injetáveis. A promiscuidade dos policiais
é um fator importante no grupo de contaminados. O Major-médico
Osmar Monte acredita que pela imposição da farda, o policial tem
muita facilidade na promiscuidade homo, bi e heterossexual.
A PM possui um hospital, com ala especial para doenças infecciosas, um
serviço de infectologia, e um controle rígido do banco de sangue.
Os pacientes recebem medicamentos e têm um acompanhamento psicossocial
extensivo aos familiares, e ainda um atendimento religioso através da
Capelania militar. A enfermaria possui 8 leitos, dos quais três em média
estão ocupados por pacientes de AIDS. Os familiares de policiais não
são atendidos no Hospital Militar, e sim na integração
que existe com o Hospital Cruz Azul de São Paulo.