Nasce
o bebê...
O que o espera do outro lado?
Ana
acaba de passar por muitas dores, mas já nem se lembra delas, tamanha
é a alegria de ver seu filho, todo sujo ainda, chorando, mas ali, novinho
em folha. O papai, nervoso, do lado de fora, sente um alívio alegre quando
escuta o choro.
A enfermeira vem, lhe mostra a criança, e o pai só pensa quando
poderá brincar com ela, ensiná-la a jogar futebol ou a brincar
de bonecas. Esse é um quadro comum em muitas famílias. Todos estamos
acostumados a passar por ele, ora como protagonistas, ora como titios, avós,
padrinhos. Mas a realidade não se resume nisso. Infelizmente, inúmeros
bebês nascem hoje sem um papai esperando do lado de fora, sem avós
para presenteá-los e pior, com os dias praticamente contados. São
as vítimas do desconhecimento, da irresponsabilidade e do erro. Filhos
de mães solteiras, filhos de pais dependentes de drogas e álcool,
filhos de pais promíscuos, cujo alvo da vida se resume no prazer imediato
e inconseqüente. Crianças que chegam à luz condenadas às
trevas. Umas já nascem sem família, outras sendo doadas, e ainda
outras são portadoras do HIV. O vírus da AIDS
A mortalidade infantil brasileira hoje está
em 60 para cada mil crianças, índice dos mais do mundo. E o Brasil
levou 20 anos para chegar a esse número com controle de doenças
do primeiro ano de vida. Além de doenças, a fome, o abandono e
a miséria também contribuem para esse índice.
Um
túnel sem luz
Bebês de mães contaminadas
No Brasil o Ministério da Saúde registra
a incidência de AIDS em recém nascidos desde 1985, e até
87 haviam 20 casos notificados de crianças contaminadas. Em 91 chegou
a um total de 726 crianças contaminadas pelas mães. A previsão
da OMS- Organização Mundial de Saúde é de que em
7 anos, o mundo terá 10 milhões de crianças contaminadas.
78% das crianças contaminadas adquiriram o vírus da mãe.
Isto é a transmissão vertical, que pode ser intra uterina, durante
o parto ou na amamentação.
O médico Paulo Ayrosa Galvão, presidente
do Conselho Estadual para Assuntos da AIDS- CONAIDS, adverte que a probabilidade
do vírus ser transmitido verticalmente varia de 20 a 50%, significando
que de cada 10 crianças, 2 a 5 adquirem o vírus. E Mais. Vale
destacar que as mulheres formam o maior grupo de contaminação
atualmente, cerca de 50% dos novos casos, segundo a OMS. (O Estado de São
Paulo, 8/9/93)
A AIDS afeta cada vez mais as mulheres jovens e adultas,
isto é, cada vez mais crianças serão contaminadas pelo
vírus. Muitas mulheres descobrem serem portadoras do HIV quando a criança
nasce. Essas crianças ficarão órfãs em um período
relativamente curto.
Iracema da
Cruz, 24 anos, descobriu ser portadora do HIV somente quando perdeu sua filha
com apenas 6 meses. Ainda na adolescência, Iracema conheceu João.
Preso várias vezes por roubo, condenado e fugitivo, João, usuário
de drogas injetáveis, continuou seu romance com Iracema, mesmo depois
de ser diagnosticado como soropositivo para AIDS. Hospitalizado por causa de
uma surra da polícia, sua recuperação foi boa, daí
não acreditar que realmente houvesse algum risco, mesmo porque Iracema
já tinha o teste negativo. Resolveram ter um filho, que aos 6 meses teve
broncopneumonia e morreu. Motivo: AIDS. Este relato traz todo um conceito errado
de como realmente as pessoas encaram a AIDS. É uma doença mortal,
terrível, mas pensam que nunca irá atingi-las. E muito menos a
seus filhos. A gravidez, hoje, é ainda a maior responsabilidade para
a mãe. Iracema hoje faz isso. Viúva e sem a filha, trabalha junto
a menores de rua e suas famílias, esclarecendo-os, envolvendo-se em seus
problemas e ajudando-os, através de um projeto da primeira Igreja Batista
de São Paulo (vide JEAME, pag.
19)
O
caso Sheila Cortopassi, a garota que ficou conhecida por ser portadora do HIV,
mostrou uma nova face na história da adoção: a do amor
incondicional pelo ser humano. Sheila, com 6 anos de idade, faleceu há
pouco tempo, vítima da AIDS. Mas a coragem e fé de seus pais,
que a adotaram conscientes de sua enfermidade, venceram as barreiras da discriminação
e do preconceito da sociedade brasileira.
Depois da vitória na justiça, para garantir uma vaga na escola
em que foi rejeitada por ser portadora do HIV, Sheila simboliza o primeiro e
grande passo, que pode mudar o drama de muitas crianças, que não
tiveram a mesma sorte. Elas não conseguiram uma família. A história
de Sheila e de seus pais, Sônia e Sérgio Cortopassi, provaram que
ainda existe amor e solidariedade entre as pessoas. A partir do momento que
se expuseram, muitos apareceram em sua defesa contra o preconceito, como foi
o caso do diretor do Colégio São Luís, Luiz Fernando Klein,
que ofereceu uma bolsa de estudos a Sheila, mesmo contra a vontade de alguns
pais da escola.
Essa foi a lição número um. Da teoria para a prática,
todos precisamos mudar de lado na história. De expectadores e leitores
para participantes. A doença, o abandono, o amor e a solidariedade têm
oferecido várias lições ao homem. É preciso praticá-las.
Adoção: Que Amor é Esse?
Em
meio a uma sociedade egoísta, criada à imagem e semelhança
da TV, surge a necessidade de se entender e praticar um amor radicalmente diferente.
O amor verdadeiro é profundo, acontece no contexto de duas atitudes,
que fertilizam e fazem brotar.
Primeiro, é fundamental haver um conhecimento amplo da pessoa que é
alvo do amor. A segunda atitude é um profundo compromisso de maximizar
tudo que for bom para a outra pessoa. Não se trata de proporcionar tudo
que o outro deseja. O verdadeiro amor tem discernimento para entender tudo que
o outro precisa; ele conhece a pessoa amada e considera o bem do próximo
acima dos interesses e egoísmo de quem ama.
Recentemente, minha esposa e eu recepcionamos um casal estrangeiro que veio
ao Brasil adotar crianças. Toda a documentação havia sido
submetida previamente às autoridades competentes, e agora estavam retornando
para um período de convivência, e finalmente, a adoção
dos três irmãozinhos.
Durante semanas, testemunhamos perplexos o brotar de um amor do qual nós
não nos sentíamos capazes. Os meninos com 9, 6 e 5 anos de idade,
chegaram em condições pouco favoráveis. Traziam no corpo
as marcas de vários anos de maus tratos, vivendo em condições
precárias. Iniciamos imediatamente tratamentos dentário e intestinal,
além de regularizar sua alimentação e exercício.
Em poucos dias, a aparência dos meninos mudou. Sorrisos começaram
a se esboçar espontaneamente. Chutes e socos entre si foram substituídos
por abraços e carinho. Palavras depreciativas deram lugar a um respeito
mútuo e encorajamento.
“Será que são portadores do HIV?” as pessoas a nossa
volta que não perguntaram, certamente pensaram. Afinal, esses irmãos
haviam experimentado uma vida de brutalidade, abusos e sujeira, por tempo prolongado.
Alguns de seus coleguinhas foram vítimas no fogo cruzado entre gangues,
como o “Banha”, que “...ficou cheio de tiro e morreu”.
Viveram na companhia de adultos irresponsáveis, absolutamente descontrolados,
praticando hábitos e raciocínios doentios. As crianças
estariam contaminadas? Em se tratando de AIDS, é imprescindível
o exercício do mais maduro discernimento, do mais enérgico controle
comportamental, da mais sincera empatia, e do mais profundo amor.
Que amor é esse?
Acompanhando a preocupação
do casal a respeito da saúde dos meninos adotados, aprendemos algo muito
simples e ao mesmo tempo muito profundo.
As questões mais complexas da vida, especialmente aquelas para as quais
a ciência não tem solução e ainda não existem
remédios, precisam ser vividas sob o ponto de vista do amor verdadeiro.
Este, o amor que busca conhecer amplamente, visando maximizar o bem
“Ninguém tem amor maior do que este: de dar a alguém a própria
vida em favor dos seus amigos (Evangelho de João 15:13)”. Este
amor, vivido e exemplificado por Jesus Cristo, introduz esperança onde
existe tristeza, e vida onde a única perspectiva é a morte.
Sentindo este amor, profundamente, o casal concluiu: “Com ou sem AIDS,
eles são nossos filhos”!
Vinícius Abdo Jaquery
Vinícius Jaquery é psicólogo e administrador, e dirige
uma organização que visa amparo e adoção de crianças
órfãs.
A
sorte está lançada
O drama das mães solteiras
“...Então descobri que estava grávida. Não sabia
o que fazer, me desesperei, tentei o aborto em vão, aí resolvi
doar a criança quando nascesse...”
Esse trecho é de uma adolescente, da cidade de Curitiba,
e podia ser de qualquer adolescente em igual situação, em qualquer
parte do país. Crianças na condição desse bebê
nascem todos os dias nas nossas maternidades, casas ou mesmo ruas, frutos do
despreparo e desconhecimento de outras crianças: as adolescentes mães
solteiras...
Recanto
da paz
Uma solução na gravidez indesejada
Eliana, 24 anos, está na sua terceira gravidez e pela
primeira vez está em paz. Dependente de drogas até o quarto mês,
hoje ela se sente muito bem, “nem me lembro do quanto precisava do crack.”
Esta conquista foi graças ao trabalho desenvolvido pelo Recanto da Paz,
um abrigo evangélico em Curitiba, próprio para mães solteiras,
dirigido pelo Pr. Angus Plummer.
Ela, como outras 500 mulheres, de 9 a 40 anos, foram alvo da dedicação
de voluntários durante 9 anos de existência do abrigo. Médicos,
psicólogos, assistentes sociais fazem parte do grupo de voluntários
que atuam no Recanto da Paz. Além de convênios médicos,
o abrigo oferece cursos profissionalizantes para as mães no período
que passam ali.
“Sem a participação da comunidade não há muitas
possibilidades de resgatar dignidade humana de mulheres marginalizadas. Para
elas é essencial devolver-lhes força para enfrentar a sociedade
e um caminho próprio” afirma o pastor Angus. Tudo começou
quando sua mulher, Carmem, assistindo TV, ouviu o apelo de uma jovem mãe
solteira que não tinha onde morar durante a gravidez. O casal então
empenhou-se em procurar um local para a jovem e nada conseguiu. Então
a idéia do abrigo veio em seguida.
Amor
Incondicional
“É inacreditável como nos aceitam, sem saber quem somos
ou de onde viemos. Tive tal compreensão.” confessa Eliana com alegria,
depois de três companheiros, dos quais teve três filhos (um deles
foi abortado), e se envolveu com tráfico de drogas no último relacionamento.
Com a prisão deste companheiro, lhe indicaram o Recanto da Paz, em Curitiba,
onde a menina, já no nono mês, nos contou sua história.
As meninas que procuram o Recanto da Paz geralmente vêm de experiências
de amor comercial, onde sexo é trocado por comida, dinheiro, moradia
e até mesmo um pouco de afeto. Cada mulher que chega no Recanto da Paz
traz um drama diferente em sua história. A.A., de 17 anos, menor de rua,
enfrenta pela terceira vez uma gravidez indesejada. Trocou sexo por comida com
um porteiro de um hotel de programas, que poderia ser seu avô, e agora
nega ser o pai de seu filho.
Rejeitadas pelas famílias, muitas não tem para onde ir. É o caso de outra menor que em 86 teve um filho. Só descobriu que estava grávida no sexto mês, quando sua mãe percebeu as mudanças no seu corpo e a levou ao médico. A família aceitou a criança, mas não a filha, que teve que sair de casa e se virar. Hoje ela está grávida novamente e chegou ao Recanto da Paz pela “patroa”, que não quis uma doméstica grávida em casa. “No início pensei em dar meu filho, mas hoje aprendi que ele precisa de carinho e amor. Agora acredito que Deus existe, pois aqui aprendi com as obreiras o que é o amor. Obrigada, Deus, por tudo isso.”
Como é o trabalho
Cada voluntário, também
chamado de obreiro, é instruído a viver espontaneamente o evangelho
de Cristo, amar e acolher os outros, embora nem sempre seja fácil. Para
eles, o estilo de vida cristã é o mais importante no abrigo, para
que haja transformação no comportamento das internas. Segundo
Carlos Gryzbowsk, psicólogo que atua no Recanto, 60% afirmam ter experiências
reais com Deus. O estudo da Bíblia faz parte da rotina, mas dá-se
ênfase à vivência do cristianismo.