O
HOSPITAL 180 MINUTOS
NO OÁSIS DA SOLIDARIEDADE

Relato do jornalista Nehemias Vassão, após permanência
de três horas no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São
Paulo.
Avenida Dr. Arnaldo- 13 horas
Resolvo entrar
com o carro, o guarda levanta a barra que impede a passagem. Com polidez indica
onde devo me identificar, uma senhora me entrega o crachá de visitante.
Sigo de carro até o fundo, acho uma vaga na deliciosa sombra de uma árvore,
estaciono. Manoel Francisco, guarda do pátio, se aproxima. "Aqui
é a área dos médicos", avisa com sorriso contrafeito,
como se temesse me aborrecer. "Mas não tem problema", continua
com a expressão serena de quem achou a solução, "eu
chamo o senhor se algum deles precisar estacionar".
Entro no saguão da Casa Rosada. Há grandes retratos nas paredes,
todos sem identificação. A figura me vem à mente: foram
anjos benfeitores, tão ocupados no trabalho que até esqueceram
de assinar seus nomes. Um rosto marcante, traços finos, não está
incógnito. Sob seu retrato, o nome: Emílio Ribas. Só. Ali
não está escrito que foi médico famoso, que dedicou a vida
à pesquisa e tratamento de doenças infecciosas, que em 1890 fundou
o hospital, hoje com seu nome. Uma mulher sai de sua sala para indicar onde
está quem procuro: Eleny, a capelã evangélica. Sigo pelas
alamedas internas até encontrá-la.
Saímos
os dois para uma visita à realidade de um mundo onde a AIDS domina, ainda
imbatível. Há dez anos como capelã evangélica do
Hospital da Clínicas e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas,
Eleny Vassão de Paula Cavalcanti conhece as tristezas de cada um. Do
fundo de uma enfermaria, internado naquele dia, José Roberto, 35 anos,
vendedor de carros, sorri para nós. Também sorrindo, Eleny saúda
com um "ôooii..." sonoro e prolongado. Sua mão direita
descansa sobre os joelhos dobrados dele, agasalhados por um cobertor. Os dedos
se mexem ,como que a acariciá-lo. A fala da capelã é suave.
Pergunta-lhe pela reação da família ao saber que contraíra
o vírus HIV e se regozija: "É uma bênção
que eles o apoiem!" Fala-lhe palavras de estímulo e conforto. Promete
que voltará.
Sandra está no corredor. Vinte e oito anos, média estatura, morena,
magra, olhos de pálpebras baixas como se estivessem semicerradas. Há
um tom de amargura na sua voz: "Estudei enfermagem quatro anos para salvar
vidas. Atendo um paciente, dou-lhe oxigênio, ele melhora. Vou para a casa.
Quando o procuro, no dia seguinte, está morto..."
Há quatro anos no Emílio Ribas (é enfermeira há
oito), Sandra viveu muitos desses momentos. Só a lembrança de
João Paulo, 20 anos, um paciente que teve alta, faz seu rosto se abrir,
feliz. Num dos poucos momentos de folga (ela tem outro emprego), Sandra, o marido
e os filhos gêmeos, Felipe e Otávio, de 14 meses, encontram João
Paulo no "Shopping". Sorri feliz quando conta: "Sabe o que ele
disse ao meu marido? Ela é minha enfermeira!"
Entramos na sala da capelania. Carolina Martins de Lima, 32 anos, baixa estatura,
53 quilos, senta ao meu lado. Alegre, comunicativa, rosto expressivo, olhos
brilhando, sempre sorrindo, diz tranqüilamente: "Tenho o vírus
HIV. Fui infectada pelo Israel, meu marido. Ele levava uma vida promíscua".
na acusação não há qualquer resquício de
ressentimento. Carolina revela que hoje são mais felizes que antes, embora
a situação dele seja precária: está no grupo 4,
o mais avançado. Não trabalha mais. Era assentador de carpete.
Com manchas nas pernas afetadas pela doença, não pode mais pular,
como fazia antes, para assentar o carpete. O motivo do despreendimento de Carolina,
ao encarar a fatalidade tem explicação: ela e o marido aceitaram
a Jesus.
"Nos convertemos em Monguaguá. Na igreja onde fomos, a recepção
amiga nos cativou. Depois, a leitura da Bíblia e o Louvor foram nos elevando.
Aí veio a mensagem do pastor José Moraes sobre o tema 'Se o meu
povo orar...' (II Crônicas 7:14). Ali mesmo, Israel e eu tomamos a decisão:
vamos mudar de vida." A vida de Carolina mudou realmente, a partir dessa
noite. Seu lema- Viver para ser útil- levou à capelania do Emílio
Ribas, onde está há um ano e meio, dando força total aos
que, abalados física e espiritualmente, precisam de seu apoio, de sua
alegria. Ela disse que está melhor do que antes, quando era secretária
de informática, em uma grande empresa de São Paulo, além
de fotógrafa de casamento nas horas vagas.
Carlos Henrique, 28 anos, paciente terminal há cinco anos, descobriu
que era portador do HIV em 1986, ao fazer teste para saber se tinha dengue.
"Não queria acreditar. Era o HIV!" -exclama. Drogas e prostituição
(era bissexual) levaram-no a esse resultado e ao Emílio Ribas, onde foi
internado. "Fiquei numa enfermaria com muitos pacientes. Vi oito deles
morrerem." -conta com tristeza.
O vício foi mais forte que a dura experiência da primeira passagem
pelo Emílio Ribas. logo que saiu, Carlos Henrique foi preso comprando
drogas. Jogado numa cela, reconheceu finalmente que estava ali, doente e encarcerado,
porque tinha esquecido o Deus-Jeová que conhecera no lar em que fora
criado (é filho de mãe judia). Fez um propósito: se saísse
da igreja, voltaria à igreja. "Voltei. aí Deus me deu outra
provação: câncer."
CENTO E OITENTA MINUTOS NO OÁSIS DA SOLIDARIEDADE
De novo no Emílio
Ribas, ouviu de um pastor a leitura de Habacuque 3:17-18: "ainda que a
figueira não floresça, nem haja fruto na víde, o produto
da oliveira minta e os campos não produzam mantimentos, as ovelhas da
manada sejam arrebatadas e nos currais não haja vacas, todavia eu me
alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação".
Carlos diz que entendeu: "Mesmo sendo roubado, tinha de me alegrar, na
derrota triunfar". Saiu do Emílio Ribas aos 22 anos, o vírus
HIV no sangue.; internado com 70 quilos de peso, ao sair, 4 meses depois, pesava
43 quilos. "Tive alta para morrer...". Não morreu em 30 dias.
Na mente ainda o pensamento que não mais esqueceu: "Alegrar-me no
sofrimento". Em julho/92 integrou-se à equipe de Capelania Evangélica,
onde ajuda os que precisam de alento. Com peso em torno de 52 quilos, tem uma
situação estável. "estou bem agora. Amanhã
uma diarréia pode me levar".
Não teme a morte. "O Senhor me sustenta. Ele dá o que podemos
suportar". Cita o apóstolo Paulo em Filipenses 4:14 : "Tudo
posso naquele que me fortalece". No seu rosto jovem há um sorriso
tranqüilo.
Andamos de uma para outra enfermaria. Nas faces ao redor, a leitura é
a mesma: todos sabem que é uma questão de tempo. A esperança
de cada um é que esse tempo seja o maior possível. E se repita
com eles o que vem acontecendo a um dos pacientes. Portador do vírus
HIV, ele visita o Emílio Ribas, periodicamente, há 12 anos.
A morte passeia entre os leitos. E deve se surpreender com a alegria de Carolina
e de Carlos Henrique que estão de pé, prestando socorro aos companheiros.
Senhora de si, vai de um lado para outro, determinando quem segue hoje, amanhã
ou depois. Talvez daqui a uma semana ou meses. No Emílio Ribas todos
os dias registram-se óbitos entre doentes de AIDS.
Estamos diante do leito de Ruth, uma mulher simples, pouco mais de 30 anos.
Ela fala depressa e faz questão de assinalar que seus dias melhores foram
os que conviveu numa igreja evangélica. Depois voltou à prostituição,
na estação da Luz. Como se não bastasse seu sofrimento
causado pelo vírus HIV, Ruth tem outro problema: deixou pertences e documentos
com uma mulher no bairro da Luz e agora não consegue reavê-los.
"A mulher exige que eu pague um milhão" (hoje mil cruzeiros
reais). Ela está no Emílio Ribas sem documentos. Desafio para
Djalma, um jovem de cor, que se solidarizou com Ruth. Na sua atividade de assistente
social ele se esforça ao máximo, tentando solucionar o problema.
Sorridente, o padre João Inácio, capelão católico-romano,
vem abraçar Eleny, a colega evangélica. No Oásis da Solidariedade
não há dogmas, conceitos e preconceitos que separem seres humanos
preocupados em ajudar os que sofrem. Pergunta-me se sou doutor. Jornalista-
respondo- fazendo uma reportagem sobre AIDS. Ele me anima: "Bom trabalho.
Vá em frente".
Pela janela, junto à cama de Maria, olho para a Avenida Dr. Arnaldo.
Ouço o ruído da cidade, o ronco continuado que vem do deserto
das ruas e avenidas, repletas de carros em movimento. Mal consigo ouvir o que
diz a bibliotecária de hábitos recatados, acostumada ao silêncio
obrigatório de sua sala de trabalho, agora sobre uma cama de hospital,
exposta aos olhares de visitantes e pessoas à sua volta. As diferentes
expressões em seu rosto revelam inquietude. Discreta, ela procura não
tossir na nossa frente.
Não faço anotações. Procuro gravar na memória
o que vejo e ouço. Não quero dar-lhe a impressão de que
estou ali, ávido de sensação, para devassar sua privacidade.
Fica na minha memória a lembrança da preocupação
de Maria pelo filho de seis anos e pela irmã, criada como doente mental.
Só depois de adulta descobriu-se seu verdadeiro problema: surdez. Maria
sofre pelo filho e pela irmã: Quem cuidará deles?
CHEGAMOS
À ALA DAS
CRIANÇAS
As mais novas
brincam com pais e avós. Não sabem porque estão ali. Têm
dodói, mas não percebem que o dodói vai matá-las.
Nem mesmo entendem o que é morrer. Um garoto ri, jogando a cabeça
contra o ombro da avó. ela também ri. Um riso sem expressão,
porém. Porque ela sabe que a alegria vai cessar a qualquer momento.
A imagem das crianças condenadas, brincando como se nada estivesse acontecendo,
traz-me à mente cenas de filmes de viagens espaciais a planetas cujos
habitantes são todos adultos. Não há mais criança.
Nem futuro. A interrogação vem à minha mente: que será
do mundo sem o riso, o choro, as turras, as travessuras, as perguntas, as respostas,
o afago, o carinho, as malcriações, o abraço, a sapequice,
a ternura, a inocência deles?
Como será o mundo sem criança?
Sem nenhuma graça.
A contrário dos pequeninos, os maiores sabem que estão morrendo.
Fico conhecendo a história de um menino, hoje com 11 anos. Aos 6, estuprado
por um de 14 da FEBEM, contraiu o vírus da AIDS. Desde esse dia seu rosto
se petrificou. Nunca mais riu. Na mente figurada ele criou a própria
imagem da caminhada para o fim. Diz que está viajando num barquinho que
afunda um pouco cada dia. Confiante, confessa que não se importa mais
que o barquinho afunde. Explica a razão desta paz: "Jesus vem me
salvar !"
A DIFÍCIL E ESTAFANTE JORNADA DOS QUE VIVEM PARA SERVIR
No andar
mais alto, encontro o Dr. Ivan de Oliveira, 53 anos, diretor clínico
do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, há mais de 10 anos.
Ele tem o mesmo ar cansado de Dr. Paulo Ayrosa Galvão, diretor geral,
a quem fui apresentado pela capelã Eleny, no início da visita.
A estafa estampada no rosto desses homens, que um dia terão seus retratos
na galeria do saguão de entrada, tem tudo a ver com a responsabilidade
que carregam sobre seus ombros. São eles que decidem como atender ao
crescente número de pedidos de internação - em torno de
200 a cada dia - e como administrar as verbas, de modo que nada falte, para
que o atendimento seja o melhor possível. Por isso, mas do que ninguém,
eles sentem na alma quando, por falta de verba, não há luvas,
gaze os máscaras de proteção, expondo ao contágio
as equipes que trabalham em contato direto com os doentes.
O crescente problema é a solicitação de pedidos de internação.
Como hospital de referência nacional para a AIDS, o Instituto de Infectologia
Emílio Ribas absorve 60% dos casos da Capital e Grande São Paulo.
A situação preocupa o Dr. Ivan porque a evolução
da AIDS corre de modo diferente de outras moléstias. Ele compara com
outras epidemias que assolaram o país anos atrás. "A realidade
é sombria" - avalia. E explica que no surto de febre amarela o maior
trabalho era matar o mosquito transmissor; na doença de Chagas, acabar
com o barbeiro que proliferava em casas de tijolo; no da esquistossomose, sanar
as águas paradas e os esgotos. Outro exemplo citado pelo médico
é o surto de meningite de 1974, em que 30 mil pessoas foram tratadas
com bom resultado e a epidemia que ameaçava 80 milhões de brasileiros
foi debelada.
"A vitória sobre a AIDS depende das pessoas !" aflige-se o
Dr. Ivan. E da mudança de hábitos e costumes de cada um. Trabalho
difícil e demorado que só dará resultados se TODOS ajudarem".
A tarefa de CONSCIENTIZAÇÃO - palavra chave em todo processo -
pode ser iniciada por igrejas, entidades e grupos religiosos - cristão
ou não.
"Desde que sejam superados tabus que impedem a livre discussão do
problema e dificultam sua solução" - concluiu.
Abre-se o
portão de saída. O guarda acena, acelero o carro e pero sobre
a calçada, à espera de uma brecha para sair do oásis e
voltar ao deserto de asfalto. Finalmente consigo entrar no fluxo de carros,
dirigido por gente apressada, absorta com seus planos:
"Hoje ou amanhã iremos para a cidade tal, e lá passaremos
um ano, e negociaremos e teremos lucros". Poucos deles devem conhecer o
texto de Tiago 4:14: "Vós não sabeis como a neblina que a
neblina que aparece por instante e logo se dissipa".
São
16 horas, na Avenida Dr. Arnaldo.
O
TRABALHO EM MEIO A AIDS
"Fim de Esperança"
O Hospital
Existe
uma grande diferença entre o paciente de AIDS e qualquer um outro paciente.
A AIDS não tem cura. Para um outro paciente, quando entra em um hospital,
mesmo estando em estado de coma, ainda há a esperança de vida,
de cura. Com a AIDS, tanto paciente, familiares, como médicos e pessoal
da saúde sabem que a morte é certa.
A depressão já é uma característica inerente no
paciente com AIDS. Ele chega ao hospital chocado pelo diagnóstico, como
quem já recebeu o atestado de óbito mesmo antes da morte. A maioria
está numa faixa etária entre 20 e 35 anos. São jovens cheios
de vida que são afastados abruptamente da vida. São afastados
dos sonhos de realização, da família, dos amigos, do trabalho
e à medida que o tempo passa e a doença caminha são afastados
até de si mesmos. Tornam-se dependentes até mesmo para levar uma
colher à boca. Há casos que o paciente HIV/AIDS chega até
em estado de melhora. Mas o sentimento de perda que o vazio de um hospital desperta,
a conscientização de seu estado de doente HIV, a visão
de outros colegas de quarto em fase adiantada acabam por provocar uma piora,
o paciente começa a recusar alimento, medicação. O medo
da morte e da dor e a solidão se intensificam.
O médico George Schulte verificou que muitos de seus pacientes portadores
do HIV desenvolveram alterações na área emocional, cognitiva
e comportamental; significando mudanças das funções neuro-psíquicas.
O sistema nervoso é o principal "albergue" para o vírus.
Essas alterações, quando detectadas em fase precoce, é
possível reverter o quadro neuro-psíquico do paciente, para que
possa ser reintegrado ao trabalho, ou meio e ser útil. Do contrário,
esse também é um fator que agrava a condição do
paciente com AIDS, afastado e isolado no hospital
Médicos/
Pacientes
Relação Fundamental
A AIDS surpreendeu
até a classe médica. Os infectologistas não lidavam muito
com doenças crônicas até o aparecimento da AIDS. As doenças
infecciosas matavam agudamente (um percentual muito baixo) ou o paciente voltava
para casa restabelecido. Para a médica Marinela Della Negra, que atua
com crianças portadoras do vírus, o enfoque mudou: Da cura para
a melhoria da qualidade de vida. "Nós tivemos que aprender duas
coisas: lidar com a morte e trabalhar a qualidade de vida que resta. Os médicos
sofrem com o paciente, temos que suprir nossas deficiências, nossas angústias
e proporcionar a ele um bom período de vida".
Essa melhoria de vida do paciente com AIDS não é responsabilidade
única do médico e profissionais da saúde. Familiares e
amigos também participam desse processo.
Para a enfermeira Maria Luiza, existe um envolvimento grande entre os profissionais
da saúde e o doente. Quando em fase terminal, o médico luta entre
mantê-lo no hospital até o momento da morte e permitir que o paciente
possa ir para casa, ter o direito de estar entre os seus.
"Foi o que aconteceu com Márcia", conta a enfermeira. "A
festa de aniversário de seu filho era o único estímulo
que a mantinha viva. Na tentativa de ir para casa, Márcia lutou com tudo,
principalmente contra o tempo, pois era necessário aguardar a data do
aniversário para comemorá-lo. Chegava a data e o estado de Márcia
era bem delicado, e era impossível deixá-la ir. 'Não, amanhã
você melhora, no final de semana você vai para casa', era o que
ouvia. Na manhã do aniversário do filho, Márcia acordou
desesperada. A equipe médica decidiu então que a festa fosse no
hospital. A família traria o bolo, a criança e ali mesmo comemorariam.
Ela não aceitou, em seguida piorou, entrou em coma e não teve
mais a chance de ir para casa...". Nesses casos, a enfermeira Maria Luiza
acredita que o doente deveria ter direito sobre si, e o próprio médico,
liberdade para decidir o que achasse certo.
Falta Funcionários
Para a Diretora de Enfermagem do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Dorotee, cuidar do paciente com AIDS chega a ser traumatizante para o funcionário de saúde. Há sempre o envolvimento com o doente que recebe em média 17 medicações por dia. Na manhã seguinte, o paciente não está mais lá. É difícil conviver com a morte dia a dia, já que a maioria vai para o hospital já em fase terminal da doença. O paciente de AIDS é totalmente dependente, debilitado, e precisa de ajuda para ir ao banheiro, para comer e principalmente de carinho, atenção e amor. "Faltam funcionários. Alguns são contratados e sofrem pressões da família que não quer um membro lidando com AIDS; há até ameaças de separação de casamento, caso o cônjuge insista no trabalho. Isso sem comentar sobre o salário, que é relativamente baixo", lamenta a diretora de enfermagem. Há falta de voluntários. Alguém que possa dedicar-se principalmente à noite e finais de semana, quando o número de funcionários é reduzido. Diante disso o funcionário se dá por inteiro no cuidado do paciente HIV/AIDS, e por vezes acaba "estressado". Há muito por fazer para criar melhores condições para um paciente com AIDS.
Medicina
QUANDO É PRECISO DAR MAIS
O ser humano,
ao longo da vida, encontra muitos obstáculos e dificuldades que desencadeiam
sua reação para superá-las. Há porém, determinadas
situações em que as pessoas se fragilizam, se tornam inseguras,
amedrontadas. É o que acontece entre os que adoecem e precisam ser hospitalizados.
Tudo o que foge ao controle do homem o assusta. Será grave? Terá
cura?
Aí o médico assume seu importante papel de não só
minorar o sofrimento físico, mas também de transmitir apoio, segurança.
A opinião é da médica Helena de Oliveira do I. I. Emílio
Ribas. Para ela, no momento em que a AIDS aumenta assustadoramente, é
o momento para a classe médica refletir se está desempenhando
bem a tarefa técnica e científica, como também saber levar
uma palavra de consolo, de amizade e fé.
O medo da morte é uma constante para o paciente de AIDS, que vê
a proximidade do fim quando do agravamento de seu estado geral. “Apontar
um Novo Caminho, uma Nova Vida, resulta muitas vezes numa mudança do
paciente em relação à própria doença e à
vida”, afirma a médica, e mais: “Em nossas visitas diárias
podemos ajudar compartilhando com o paciente a nossa fé, para que ele
sinta a proximidade de Cristo e se reconcilie com Ele.
A psicóloga clínica Heloísa de Araújo Campos, do
I.I.E.R. também compartilha da posição da médica.
Para ela, o atendimento psicológico a doentes de AIDS possibilita-os
a continuarem a “viver” e não “morrerem” antes
da morte clínica. É fundamental que eles resgatem suas angústias,
culpas, fantasias e afetos vividos até então, para poderem lidar
consigo mesmo e com o círculo social.
Com relação à prevenção, a psicóloga
do I.I. Emílio Ribas, acredita que não basta apenas a informação.
Mas “é necessário que o processo de prevenção
se internalize dentro de cada um para a mudança de cada um para a mudança
de comportamento, sem a qual não se obtém prevenção”.
E para isso toda a sociedade deve participar na luta contra a AIDS, afirma a
psicóloga. Através de informação dos riscos, das
formas de transmissão e prevenção e tendo acesso a serviços
assistenciais.
"O que fazer quando, aparentemente, não há mais nada a fazer?"
O
que fazer quando não adianta prevenir, educar, evitar, porque o mal se
instalou no sangue, invadindo cada órgão do corpo, dominando e
destruindo as defesas, a esperança, os sonhos e a vida? Infelizmente,
esta é a realidade entre milhões de pessoas contaminadas pelo
vírus HIV em nosso planeta, e as expectativas para o futuro são
sombrias.
José,
contaminou-se através das seringas
contaminadas no uso de drogas.
Maria,
quietinha em sua casa, foi contaminada
pelo marido, que encontrou fora do lar
fugidios momentos de prazer.
Dr.
Mário,
homossexual confesso, está tão
contaminado quanto Joãozinho, que
aos 6 meses de idade passou a ter um
novo lar: o hospital.
Todos eles estão diante da grande realidade da vida: a morte. Ela se aproxima agressiva, atingindo-os na flor da idade, em meio aos projetos de vida. Mauro, um doente de AIDS, membro da Capelania Evangélica do I.I. Emílio Ribas, conta-nos como foi seu encontro com a sombra da morte:
"De repente, olhei para minha vida depois de desse sinal + e não
consegui ver mais nada senão o túnel escuro e frio no qual eu
me encontrava.
Meus livros do colégio perderam a utilidade, a compra daquela jaqueta
tão esperada já não importava mais, e o plano de ir à
Foz do Iguaçu nas próximas férias?
A maioria dos meus planos para o futuro acabavam de falir. As pessoas podiam
falar muitas coisas bonitas para tentar consolar-me, mas eu só sabia
o que se passava comigo.
Tentava aparentar força e confiança, mas nos meus monólogos
noturnos com o meu travesseiro, perguntava: 'Por que nasci? Vou morrer... o
que é a morte? Sinto-me como um acidente no meio desses dois acidentes:
vida e morte.'
Diante da AIDS, fiquei consciente de que sou MORTAL, de que o tempo de vida
terminará em breve.
A gente nunca para pensar que um dia vai morrer, enquanto está comendo
x-salada e tomando coca-cola. Vivemos como se fôssemos eternos.
Mas o ponto final da história da minha vida chegou quando eu menos esperava,
na inconsciência louca da juventude me sentia tão livre. Ilusão
enganosa.
O HIV tirou todos os meus ideais a longo prazo: agora estou cara-a-cara com
aquela + (cruz)- minha sentença de morte. Como encará-la?
Não é todo mundo que tem um sinal como esse para mudar o curso
da sua vida."
Muitas
pessoas, ao se descobrirem contaminadas com vírus HIV, perdem a esperança,
só aguardando a morte chegar. Outros também passam por este estágio,
mas buscam a Deus e encontram forças para continuar a luta.
Se pensarmos bem, todos nós temos uma "sentença de morte"
pairando sobre nossas cabeças. Ninguém sabe como ou quando morrerá;
se de AIDS, atropelado, enforcado ou de um simples escorregão na calçada.
Há pensamentos interessantes sobre essa inimiga:
"De cada pessoa, uma morre".
"Nossa
morte foi preparada desde
que nossa vida foi concebida"
(William Gurnall)
"Toda
pessoa precisa fazer sozinha
duas coisas: crer e morrer"
(Martinho Lutero)
Em nossa
vivência diária no I.I. Emílio Ribas, onde a morte por AIDS
e outras doenças infecto-contagiosas é uma constante, observamos
alguns fatos importantes: as pessoas tiveram uma vida de grande atividade, exercendo
cargos de autoridade sobre outras, com grande dificuldade em aceitar a chegada
da morte. É constrangedor para estas, conviverem com uma situação
sobre a qual não têm mais domínio.
Outras, que não tiveram alvo na vida, e a quem dedicar afeição,
sentem a morte como uma inimiga cruel, que veio pegá-las traiçoeiramente,
quando estavam pensando em uma nova maneira de, mais uma vez, tentar encontrar
razão para viver.
Por
que viver? Para que morrer?
Viver bem, é morrer bem.
Dra. Mara
Cristina S. M. Pappalardo, médica infectologista do I.I. Emílio
Ribas diz algo interessante: "Muitas pessoas não sabem morrer, porque
não souberam viver".
Com ou sem AIDS, nossa pergunta agora não é mais como morrer,
mas como e para que viver?
Os médicos têm observado que, quando não há esperança
e luta pela vida, o paciente conserva, por mais tempo, maior imunidade física.
Quando ele desiste de viver, não há quem o faça continuar.
A imunidade cai rapidamente e as doenças oportunistas invadem seu organismo.
Pessoas em depressão emocional são sérias vítimas
da imuno-depressão.
ao mesmo tempo, há muitos relatos sobre pacientes que, mesmo estando
com uma baixa imunidade orgânica resolveram enfrentar a morte, brigar
com ela e viver, apesar de tudo.
Conviver com a AIDS e a ameaça de morte tem sido a experiência
de cinco pessoas que fazem parte da Capelania Evangélica do I.I. Emílio
Ribas: Carolina, Israel, Neto, Mauro e Carlos Henrique estão contaminados
há alguns anos. Mauro e Carlos Henrique já são doentes
de AIDS, tendo desenvolvido várias doenças oportunistas, sendo
considerados do grupo 4. Mas todos eles estão em pé, trabalhando,
servindo aos outros pacientes, consolando-os até o fim, sempre com um
sorriso no rosto e alegria no coração. Muitas vezes caem doentes,
são internados, passam de consoladores a consolados, mas não desistem
de lutar.
Qual o seu segredo?
Levantando-se
de seus leitos, voltam a servir. Eles já venceram a morte, e podem viver
cada dia, de modo completo, sem maiores preocupações. Estão
com um pé no céu. O ditado popular diz que "a esperança
é a última que morre". Acontece que para os cristãos
verdadeiros (não os simplesmente religiosos, freqüentadores de templos),
a esperança não morre nunca, porque ela está alicerçada
além deste corpo, desta vida, desta morte. Sua rocha é a Pessoa
de Jesus. Não há filosofia de vida, não pensamentos positivos,
não energias, não florais de Bach ou outra coisa qualquer. Jesus
é Deus feito homem, que por amor, escolheu se dar por nós, morrendo
numa cruz. Mas Deus não está morto, Ele ressuscitou e vive hoje.
E a vida só é Vida quando Ele vive em nós.
Quando nos enxergamos como realmente somos fracos, pequenos, propensos a cair
e ao mesmo tempo guardando alguns resquícios da Criação
perfeita, da imagem de Deus, quando nos tornamos humildes, reconhecendo que
só Jesus é Deus, e o convidamos para ser Senhor das nossas vidas,
recebemos perdão completo, paz com Deus, Vida aqui e Vida eterna.
Não há diferença entre pecado e pecado. Não importa
a ele a quantidade, grau ou tipo. Pecado é tudo aquilo que desagrada
a Deus, que vai contra a sua vontade revelada na Palavra de Deus (Bíblia).
Você já parou para pensar que para Deus tanto faz se você
é homossexual, heterossexual, promíscuo ou "certinho",
bandido ou honesto, mas se pertence a Ele ou não? Que tal pedir a Deus
que examine a nossa vida em detalhes, mas com a sua misericórdia e o
seu amor nos ensine a andar em Seus passos?
Qualquer
um de nós da Capelania Evangélica (Pr. João Hamilton, Lúcia,
Carolina, Carlos Henrique, Mauro e Neto), que nos encaminhamos diariamente ao
leito de cada paciente para consolá-lo, estimulando suas esperanças
e a luta pela vida, falamos em Deus, não iniciamos enfatizando sua lei
ou justiça. Só falamos a esta pessoa, que pode estar amarrotada
pelas aplicações de silicone, cirurgias plásticas mal feitas,
peles escurecidas pela doença e marcadas pela sujeira da rua, que apesar
de tudo, Deus nunca deixou de amá-la, seu semblante endurecido se quebra,
e as lágrimas há muito contidas começam a rolar, em choro
compulsivo. Não há como ficar imune a tanto amor e é este
amor que constrange os corações.
Então, o Espírito Santo atua com mais força, traz à
mente a visão do lodo em que vive, e pela primeira vez ele se vê
como realmente é- perdido, distante, no fundo do túnel, na lama.
mas agora há uma esperança. A mesma luz que o faz ver a sujeira,
mostra-lhe a beleza da claridade, da limpeza de uma vida nova que ali começa
a se esboçar. Não mais o preocupa o tempo, a quantidade de vida,
mas sim o viver com transparência por Aquele que, apesar de todo o lodo,
nunca desistiu de o amar.
Quando o Coral dos Funcionários do hospital passa pelos corredores, cantando
com sorriso nos lábios, alegria transbordando pelos olhos e pela canção,
percebe-se em cada leito um choro profundo, de uma alma que está sendo
levada, alguém que está descobrindo a Vida em meio a morte, e
não a teme mais.
Eleny Vassão de Paula Cavalcanti