Famílias contaminadas



Uma equipe dirigida pela médica infectologista Sônia Miura do I. I. Emílio Ribas, realizou uma pesquisa piloto no município de São Paulo para definir os aspectos sociais, psicológicos e econômicos das famílias que perderam um dos membros no período de 1986 a 1991 pela AIDS. A pesquisa ouviu parentes e amigos de doentes, e ainda os familiares conviventes. A maioria continuou com o mesmo relacionamento porque não chegou a saber que se tratava de AIDS. No caso de amigos, 21,4% se afastaram totalmente e no caso de familiares conviventes 32,8% afirmaram que houve uma melhora no relacionamento. (Confira o quadro). Uma senhora acompanhou a amiga numa visita a um conhecido no Instituto Emílio Ribas. Ao chegar lá, deparou com seu ex-marido, de quem estava separada há seis anos. Ela resolveu assumir seu companheiro, doente de AIDS, e cuidou dele por 8 meses, período em que ele viveu. Essa mulher disse aos pesquisadores que fez isso por amor e respeito ao próximo. "Sou bem sucedida profissionalmente e estou agradecendo pelas oportunidades que tive na vida". Esse é um dos poucos relatos que revelam respeito e solidariedade dentre as pesquisas realizadas pela equipe da médica Sônia Miura.
As demais histórias trazem até perseguição de vizinhos. Uma entrevistada foi pressionada pelos vizinhos para que se mudasse, depois da morte do marido aidético. Embora não seja portadora do vírus, a AIDS tornou sua vida um pesadelo. Ela mudou-se para a casa do fundo, fugindo do "alvo" da rua e esperou muito tempo para alugar a casa da frente. Até que encontrou um casal solidário que tem sido sua família, já que a sua própria a abandonou. Mesmo assim, foi obrigada pela vizinhança a passar cal em toda a casa e ainda espalhar pelo quintal para "desinfetá-lo".
Mãe e filha vivem isoladas há mais de dois anos. O marido, professor universitário, família tradicional do interior do estado, afastou-se das atividades, amigos e familiares quando descobriu ser doente de AIDS. Um ano depois ele morreu. A mulher, também portadora do HIV, vive isolada com a filha. Os familiares têm medo da repercussão do "caso" na cidade onde vivem. Essa mãe teme pelo futuro da filha, 9 anos, se ela vier a morrer. Uma outra mulher, encontrou na doença do marido e na sua própria, maior aproximação com Deus. Para ela, a humilhação e o abandono dos amigos e familiares trouxe o ensinamento de que se deve amar o próximo mesmo na ausência de amor por parte dele. E isso não está ligado à religião, pois o próprio pastor da igreja que freqüentava há dez anos, pediu-lhe que saísse do convívio da igreja. Hoje viúva, essa mulher trabalha como doméstica, do lado oposto do bairro em que mora, mantendo sua situação de portadora do HIV em segredo, para garantir seu emprego e sua sobrevivência.
Um outro caso: a menina recebe bilhetes de colegas dizendo que ela está emagrecendo e que em breve irá morrer, como aconteceu com o pai. Que ela deve sair da escola. Essa já não é a escola mais próxima de onde mora, pois não encontrou vaga onde era conhecida. As vidraças da casa vivem quebradas e a caixa de correspondência é repleta de bilhetes ameaçadores.
Uma outra família está proibida de comprar na padaria e mercearia do bairro. Ninguém quer aceitar dinheiro que venha das mãos deles. A viúva com dois filhos pequenos não pode mudar porque a casa é sua e não conseguiria pagar aluguel. As crianças não podem brincar na rua e têm que ser levadas à escola de carro.
O que a sociedade faz, ao excluir de sua vida os doentes de AIDS, familiares ou não, é fechar os olhos a um problema que amanhã pode ser o seu. Há muito por aprender e mito por fazer. "O enfrentamento da epidemia HIV/AIDS é uma questão ampla, pois as pessoas que apresentam sinais da doença já foram contaminadas há 8, 10 anos, e conviveram normalmente até esse momento. Soluções só serão viáveis no momento em que toda a sociedade perceber que a pandemia compromete a todos, e só atitudes verdadeiramente cristãs deverão ser colocadas em prática." alerta a sanitarista Sônia Miura. "Não podemos mais ignorar o problema ou julgá-lo do outro. Isso não contribui para prevenção e controle, e nos torna cada vez mais desumanos e sem razão de existência", finaliza a médica.

Relacionamento de parentes e amigos

64,3%- o relacionamento permaneceu o mesmo
66,7%- destes não chegaram a saber da doença
21,4%- total afastamento
14,3%- houve melhora no relacionamento familiar

 

Relacionamento entre doente e familiares conviventes

62,9%- permaneceu o mesmo
38,6%- não souberam da doença
4,3%- total afastamento
32,8%- melhora no relacionamento

CONAIDS
Integração da Sociedade no Combate à AIDS

O CONAIDS- Conselho Estadual para Assuntos da AIDS foi criado no final de 1989 para integrar governo, secretarias de estado e a sociedade civil no combate a AIDS. dentre os objetivos do CONAIDS estão a mobilização das comunidades a fim de criar conselhos regionais e municipais, para que a discussão das questões polêmicas relacionadas ao HIV/AIDS atinja a todos. A discriminação e preconceitos em relação aos portadores do vírus também são alvos de combate do Conselho, que promove pesquisas, seminários e fóruns de debate para conscientização e estímulo da sociedade, em geral à solidariedade.
O CONAIDS é composto por conselheiros de diversas áreas diretamente envolvidas com o problema: juizes, promotores de justiça, médicos, sanitaristas, educadores, psicólogos, assistentes sociais, advogados, policiais civis e militares, todos com experiência e atuantes na questão HIV/AIDS.

Crianças e Adolescentes no
Fórum dos debates.

Questões legais e a AIDS na realidade da Criança e do Adolescente foi o tema do Primeiro Fórum de debates realizado no último mês de agosto em São Paulo. A inexistência de uma política eficaz que integre a educação, capacitação profissional, a prevenção e o encaminhamento nas questões relacionadas ao HIV/AIDS foi o principal problema debatido. As crianças e adolescentes vivem em geral na miserabilidade. Fome, fluxo migratório, baixo nível educacional, fazem parte de sua rotina, onde a desinformação, os preconceitos, a prostituição infanto-juvenil e o uso abusivo de drogas colaboram para a evolução da infecção HIV/AIDS.
A capacitação do profissional que trabalha com a criança é a primeira decisão do Fórum de debates. Serão criados programas de informação e educação entre profissionais e outros segmentos da sociedade para atuarem na educação da sexualidade da criança. Outra conclusão do Fórum foi a necessidade de casas de apoio para atendimento de crianças e adolescentes com AIDS, com estabelecimentos de competência das secretarias de saúde e do bem estar social. Os diversos órgãos envolvidos na questão HIV/AIDS deverão ser integrados, com parcerias nas ações desenvolvidas. E ainda, além de outras decisões ligadas aos recursos humanos do estado, a revisão da lei de 1938 que regulamenta o registro de entidades sociais. Aquelas que trabalham efetivamente com pacientes HIV/AIDS devem ser registradas e receber subvenções e benefícios.

Visão Mundial

PRAIDS

Um projeto pela longevidade

Muito ar puro, muitos pássaros e uma bela vista. Quem olha para a represa Billings da sede do projeto PRAIDS, se esquece que está dentro da cidade de São Paulo. Dentro do projeto, a visão de um pomar e uma horta se confunde com qualquer chácara do interior. O projeto PRAIDS é uma casa para atendimento de doentes com AIDS, mantida pela Visão Mundial em Convênio com o Centro Evangélico de Apoio à Vida, Ceavi, na zona sul da capital, com cinco mil metros quadrados.
A luta dos portadores do vírus HIV tem sido pela longevidade. O projeto PRAIDS foi criado para dar condições emocionais e materiais para que esses tenham melhor qualidade de vida, um grande desafio para as organizações que trabalham com pessoas vitimadas pela doença. Sabendo-se que o vírus HIV se desenvolve mais rapidamente quando o corpo sofre uma queda em sua resistência, são oferecidas seis refeições diárias à base de verduras, legumes e carne. Boa parte dos alimentos consumidos são produzidos na sede do projeto.
O PRAIDS tem em média 25 pacientes, sendo que cinco leitos são reservados às mães que não podem se separar de seus filhos. Desde que foi criado, já atendeu mais de 200 pacientes. A maioria contraiu o vírus em relação homossexual. Toda a assistência clínica é prestada pelo Hospital Emílio Ribas, especializado em infectologia, AIDS.
Os próprios pacientes do PRAIDS gerenciam o projeto. Eles cozinham, lavam e passam a roupa de uso pessoal, cuidam da horta e mantêm a limpeza da sede. Para os que tem habilidades manuais é incentivado o trabalho com peças artesanais.
Outra assistência prestada pelo PRAIDS é a visita a domicílio, levando socorro material e espiritual para portadores do HIV e seus familiares. A Visão Mundial é uma agência humanitária presente em 93 países, há 18 anos no Brasil, e atua de forma educativa na prevenção da AIDS em todo o país.
Qualquer informação pode ser obtida pelo telefone (0xx31) 800.2320