CRIANÇAS
DE RUA
Nódoas no Retrato Social do Brasil
Quando uma criança
suja e magrela nos aborda pelo vidro do carro, às vezes nos oferecendo
flores, chocolates ou outra mercadoria que não precisamos naquele momento,
a primeira reação é dizer não, ou fecharmos o vidro...
Eles podem nos roubar, pensamos, e às vezes roubam mesmo, já que
durante o dia não venderam nada. Acostumados à rejeição,
o "não" ao vidro de um carro certamente não é
o primeiro nem o último. Muitos não tem casa para voltar no fim
do dia. Os que têm, têm uma dura realidade para encarar. Miséria,
pais desempregados, às vezes alcoólatras, mães com crianças
pequenas. O filho que está na rua, muitas vezes é a única
esperança de comida para aquele dia.
Sete milhões de crianças brasileiras encontram-se em estado de
miséria, em condições subhumanas. (Segundo boletim da Associação
Ministério e Esperança- AME). Até que chacinas de menores
invadam o mundo do brasileiro pela TV, a situação da criança
carente não importa muito. É apenas mais uma notícia. A
não ser em época de eleição, a questão do
menor de rua se limita a pequenos grupos que pouco podem fazer, com o pouco
que tem. O estatuto da criança e do adolescente prevê direitos
básicos, como educação e saúde, mas é ingênuo
pensar que estas crianças chegarão ao banco da escola, quando
lhes falta até mesmo comida e roupa.
Campanhas como a "Criança Esperança" promovida pela
Unicef e Rede Globo, conseguem comover muitos, que contribuem com a doação
pedida, mas só neste dia especial. Ainda é muito pouco, para que
o brasileiro posa colocar sua cabeça no travesseiro e dormir um sono
tranqüilo.
Quem são e como vivem estas crianças?
As
pesquisas realizadas pela Secretaria da Infância, Família e Bem
Estar Social revelam três tipos básicos do menor de rua. O primeiro
caso é o fruto da miséria dentro de casa. Geralmente é
uma família grande, muitos filhos pequenos, pais desempregados ou com
subempregos, que não têm como comprar comida, a subsistência
mais elementar. A criança, desde cedo, 4 ou 5 anos, sai à rua
para pedir. Essa criança acaba sendo o arrimo da família, e depende
dela o sustento dos irmãos menores.
Um outro caso é o da violência dentro de casa: os pais são
agressivos, na maioria alcoólatras, que se agridem e agridem a criança.
As crianças são vítimas da violência sexual dos próprios
pais. Para fugir disso, a criança vai para a rua, onde acaba conquistando
seu próprio espaço, e acaba aprendendo a reagir com violência
para sobreviver. Há ainda o terceiro caso de crianças de rua:
o da síndrome da casa vazia. No desespero de dar condições
ao filho, os pais saem para o trabalho deixando-o trancado em casa, por não
terem outro recurso. Um dia, essa criança descobre a porta, chega no
quintal, na calçada e acaba ganhando a rua. quando esses pais percebem,
a criança já não volta mais para casa.
Uma vez na rua, há um estatuto próprio de sobrevivência.
O espaço é do mais forte. Convivendo com a solidão, a violência,
a miséria e principalmente a falta de amor e solidariedade durante toda
a infância, os meninos se tornam revoltados, agressivos e até mesmo
violentos.
Alberto
Corazza
O MENINO DE RUA QUE
ENCONTROU O CAMINHO
O diretor da divisão de prevenção
e educação do DENARC, o departamento de narcóticos do estado
de São Paulo, Alberto Corazza, tem um motivo especial para estar à
frente desse trabalho: ele próprio já esteve do outro lado, como
um menino de rua. Formado em direito pela primeira turma da FMU, ao lado de
colegas como o ex-governador do Estado, Luiz Antônio Fleury, Alberto Corazza
começou como delegado em 1975 no interior de São Paulo. Responsável
pela instalação de sua divisão como departamento de narcóticos
dentro da polícia civil, Corazza atua ainda em várias instituições
de apoio a menores, como o projeto Nova Vida, uma casa de recuperação
de dependentes químicos e o Projeto JEAME, entidade de recuperação
de menores de rua em São Paulo.
Um menino de rua é sempre pobre e sem lar?
A história de Corazza responde. Um menino que sempre teve os olhos na rua, embora tivesse uma casa com grande conforto. Talvez a ausência da mãe o impulsionasse para fora do lar. Aida Corazza morreu com complicações no parto. A criança? O próprio Corazza. Além da falta da mãe, talvez uma culpa reprimida ressoasse na cabeça daquele menino, que só teve consciência de como realmente a mãe morreu já em idade escolar, e ainda assim, soube por um colega da mesma idade. Criado pelo pai e algumas tias, Corazza teve uma infância normal, sendo alvo dos mimos de uma grande família, na tentativa de compensar a falta da mãe. Logo aconteceu o segundo casamento do jovem pai.
Da casa para a rua
O que se passa na cabeça de um adolescente “em crise” é hoje uma especialidade do delegado. Sua sala é o ponto final de uma infinidade deles, que acabaram por se envolver em drogas, para fugir de alguma coisa. E a fuga, Corazza. Sua primeira se deu aos doze anos. Ele passou a noite de Natal fora de casa e gostou da idéia. As fugas constantes, o abandono da escola e as repreensões severas a cada travessura, aumentaram o desejo de liberdade, de ganhar a rua definitivamente. Os abrigos, os juizados de menores passaram a ser seu lar e os colegas de rua sua família. E nada melhor para acompanhar uma fuga do que uma viagem. Os viciados que o procuram, estão acostumados a muitas viagens perigosas. Mas em 1950, a viagem que fazia a cabeça do garoto rebelde e agressivo que se tornara, era a viagem de trem. Viagens de trem, furtos e cadeia foram a marca registrada em sua adolescência. A luta pela sobrevivência não se resumia a pequenos furtos. Havia um comércio: “Eu guardava pontas de cigarro, fabricava um maior e era a disputa da molecada da FEBEM.” lembra Corazza. Numa das vezes em que foi preso, Corazza agrediu um inspetor de polícia com uma caixa de engraxate para escapar de uma “noite” com ele. A solitária promoveu ainda mais o menino e Corazza tornou-se amigo e respeitado entre os outros meninos de rua, alguns do quais infelizmente vieram a ser homens do crime como: “Diabo loiro”, “Chalaça”, e outros. Um dia, encontrado por um conhecido do pai, o menino foi-lhe “devolvido” e internado no Instituto de Pesca Marítima de Santos, para “aprender alguma coisa”.
O recomeço
Aos 18 anos,
a casa e a igreja começaram a interessar ao “moleque fujão”...
Decidiu-se pela mudança de vida, e resolveu trabalhar e estudar música.
Hoje é músico, e tem em seu currículo vários corais
importantes sob sua regência. Rege o coral da Igreja Batista do Morumbi
em São Paulo. Casado, pai de dois filhos, Alberto Corazza dedica-se a
recuperação de menores. Um trabalho de quase 10 anos, que o tornou
conhecido mundialmente. Constantemente, faz palestras na Europa e nos EUA, falando
de sua atuação no combate às drogas com esclarecimento,
promovendo a auto-estima nos jovens e orientações aos pais. Enfatiza
também o tratamento em clínicas cristãs especializadas,
para os dependentes. Os resultados positivos de seu método, com certeza
têm a ver com sua experiência. Quando Corazza fala aos meninos de
rua, o faz com conhecimento de causa. O diretor de Prevenção e
Educação do DENARC dá graças a Deus por sua recuperação:
“Uma vida que poderia ter se perdido, não fosse a providência
de Deus. Nunca fui molestado, nunca me liguei ao vício ou ao crime, que
seriam o meu caminho mais lógico”. Além das entidades em
que atua com menores, o delegado de polícia Corazza participa da Associação
Evangélica Beneficente do Estado.
Educação
lança
PROJETO ESCOLA é VIDA
Olhar
com melhor atenção as crianças e adolescentes é
o apelo da Secretaria de Educação do Estado. O apelo é
feito não só aos educadores como também aos pais, e à
sociedade em geral. A incidência de vivências sexuais precoces,
uso de drogas e ainda o risco da AIDS, levaram à criação
do projeto Escola é Vida, na rede de ensino pública de São
Paulo. Segundo a coordenadora do projeto, atualmente existem 20 equipes técnicas
capacitadas atuando em 21 delegacias de ensino em todo o estado e mais 20 em
formação. O objetivo do Escola é Vida é prevenir
o uso de drogas e a AIDS, através de informações capazes
de promover mudanças de comportamento entre crianças e adolescentes.
Para a coordenadora do projeto, Maria José Siqueira, “devemos ter
claro que a criança e adolescente são responsabilidade de todo
cidadão, seja ela da família, da rua ou de instituições.
A responsabilidade não é só do governo, mas todos devem
se engajar numa proposta de valorização da qualidade de vida para
nossas crianças”.
CENA
ESCOTEIROS URBANOS
Uma opção de vida
Transformar
garotos que vivem na “boca do lixo”, no centro de São Paulo,
em escoteiros, é uma das tarefas do CENA, um grupo dirigido por Nivaldo
Nassif. O CENA tem uma sede característica: uma antiga borracharia, entre
prédios e estacionamentos no centro da cidade. Além da sede, que
também funciona como igreja, os escoteiros têm uma floresta de
concreto para suas atividades. Embora esses garotos não sejam meninos
de rua, têm a mesma vivência pelo local em que moram. Enquanto os
paulistanos evitam ter que parar por ali, esses adolescente dominam o pedaço
como a palma da mão.
As crianças são treinadas pelo especialista em escotismo, o suíço
Mathias Schar, e por uma jovem de 24 anos, Louraci Cavalcanti, a “Loura”.
No início os adolescentes não têm padrões de costumes
definidos e nem são sociáveis, e essas são metas principais
no escotismo. A geração órfã de pais vivos, que
é educada pelo primeiro vizinho disponível enquanto os pais trabalham,
é confusa física e psicologicamente. As atividades do CENA incluem
um aconselhamento cristão, que visa estruturar a identidade dessas crianças.
A população do CENA é sempre móvel. À medida
que crescem, conseguem trabalho e mudam seus hábitos pela vivência
cristã, então os escoteiros acabam optando por um lugar mais seguro
e menos promíscuo para morar. Muitos pais os acompanham, tanto na mudança
de local como na de vida
JEAME
Integrando meninos de rua à família
O projeto
JEAME- Jesus Ama a Criança e o Adolescente- Consiste em aconselhamento,
apoio e reintegração de meninos de rua. Carentes infratores, vindos
da FEBEM e das ruas de São Paulo. Uma equipe de voluntários trabalha
em tempo integral na abordagem de meninos de rua, chamada de Operação
Resgate. Esta operação promove programações esportivas
e culturais (projeção de filmes) em abrigos e clubes da Secretaria
do Bem Estar Social e na FEBEM, e com meninos da Sé. Em geral, os menores
envolvidos com drogas são enviados a diversas casas de recuperação
evangélicas no Estado, onde ficam por volta de um ano.
Nesse ponto, começa a atuação do Lar Crisame, vinculado
ao JEAME, da primeira Igreja Batista de São Paulo. É um local
para menores recuperados, com carência de afetividade e de socialização.
No Lar Crisame, em Pirituba, São Paulo, eles moram, trabalham e continuam
crescendo em sua mudança de comportamento através de educação
cristã, já que a maioria esteve envolvida com roubo, tráfico
de drogas, etc..
O JEAME mantém uma casa de transição e triagem em Interlagos
para as crianças e adolescentes que aguardam os processos legais para
adoção. Esse projeto promove condições de readaptação
em um lar, com casais modelo. 89 crianças já foram adotadas e
ainda outras tiveram o restabelecimento de vínculo com suas próprias
famílias.
Cerca de 35 crianças e adolescentes portadores do HIV são atendidas
pelo JEAME. O programa de assistência a portadores do HIV é liderado
pela obreira Iracema da Cruz, também portadora do vírus, que perdeu
uma filha e o marido pela AIDS. (Vide mães contaminadas, pag. 11). “Tenho
uma alegria muito grande no que faço, pois vejo as pessoas mudado de
vida, saindo da morte para a vida, pelo conhecimento de Jesus Cristo. Com AIDS
ou não, essas pessoas mudam”, testemunha Iracema.
AME
Clubinho com meninos de rua
A AME- Associação
Ministério e Esperança, atinge cerca de 300 crianças no
trabalho que desenvolve. Clubinhos são formados a partir de turmas e
guangues, de 7 a 18 anos, para participarem, na sede em São Paulo, com
atividades de lazer, esportes e educação cristã. A ênfase
do trabalho é o relacionamento pessoal dos meninos de rua, daí
a formação de pequenos grupos, que já vem praticamente
formados da própria rua. Depois de integrados, a equipe do AME estende
o atendimento às famílias, que são visitadas, participam
de palestras com psicólogos, recebem orientações de saúde,
educação e higiene no lar e ensinamentos cristãos.
Como os recursos são poucos (A AME vive de doações particulares)
é difícil um acompanhamento e reintegração dos menores
viciados e doentes, que são encaminhados a instituições
de recuperação.
O perfil da criança atendida pela AME está retratado numa entrevista
feita pela voluntária Ireni Leme com 5 irmãos que vivem na rua
por ordem dos pais: Mileide tem 10 anos e está acompanhada de Heleninha
de 4. “Eu vendo lixa e cartão de natal, na época do Natal.
Sou a que ganho mais entre meus irmãos, Cr$ 600,00 por dia. Sou a única
que trabalha sério, os outros ficam brincando. A nossa mãe compra
comida com esse dinheiro” conta Mileide. Ela afirma não se envolver
com drogas, “nem cola” e disse que os meninos daquela região
que usavam cola sumiram, com medo da polícia, que “está
matando as crianças”. O seu sonho é ser policial. O padrasto
foi preso por roubo e está condenado a 9 anos de prisão. A mãe
está grávida de 5 meses. nenhum dos cinco irmãos freqüentam
escola, embora Mileide saiba ler e escrever, tendo cursado até a terceira
série. Eles freqüentam a AME, onde estudam a Bíblia e fazem
atividades e recreação. Ali, eles são amados, tratados
como gente.